1 – Quem é você, de onde vem e o que faz?
Sou Clarice Basso, jornalista formada pela Ufrgs, nascida e criada no Bom Fim, em Porto Alegre. Filha da Lysette, psicóloga especializada em Criminal, que trabalhou no presídio feminino e no manicômio judiciário, e do Adilo, sociólogo, professor que teve que deixar de lecionar na PUCRS depois de ser abordado na rua durante a ditadura por dois homens estranhos que vieram ‘avisar’ que ele falava demais nas aulas. Meu pai disse que se era pra dar aula sem falar com liberdade, ele preferia não entrar na sala, e abriu uma escola de datilografia, o que na época era muito moderno. Acho que essa bagagem dos meus pais, a realidade bruta que minha mãe trazia do trabalho, o olhar crítico sobre a sociedade de meu pai, tudo isso contribuiu para chegar no que eu faço hoje, jornalismo em uma emissora pública, a TV Brasil.
Sou também uma completa apaixonada por cultura. Comecei fazendo teatro na escola e em grupo de igreja e nunca mais parei. Depois veio a paixão pelo Cinema, Artes Plásticas, e claro, isso também refletiu na minha profissão. Já fiz assessoria de imprensa para produtoras culturais, elaboração de projetos e no telejornalismo acabei cobrindo muita cultura. Cheguei a iniciar a Licenciatura em Teatro, no Departamento de Artes Dramáticas, da Ufrgs, logo depois que concluí o Jornalismo, mas era muito complicado conciliar uma segunda faculdade com os horários e plantões de uma jornalista iniciando a carreira. Mas sigo fazendo teatro como amadora e focando muito no jornalismo cultural.
2 – Como é estar à frente do ‘Recordar é TV’, na TV Brasil?
É um imenso prazer e um orgulho enorme, pois é um programa que valoriza a memória e a cultura de nosso País. No ‘Recordar é TV’ resgatamos materiais de arquivo do acervo da antiga TVE do Rio de Janeiro e da TV Brasil. O setor de pesquisa seleciona grandes entrevistas e programas especiais com nomes de destaque da cultura e da dramaturgia brasileira para reexibirmos, claro que, com uma cara nova, contextualizando para o público quando foram feitas aquelas gravações, qual a trajetória do homenageado. É interessante tanto por rever como eram há tempos atrás as opiniões, conversas, trabalhos de personalidades muito queridas pelo público, quanto para relembrar programas, apresentadores que marcaram épocas, ver como os cenários, a edição, a ‘pegada’ de programas televisivos mudaram, evoluíram. A gente se espanta com o quanto algumas questões continuam atuais, como em alguns pontos a sociedade evoluiu, em outros talvez tenhamos retrocedido.Dá pra refletir muito com o ‘Recordar é TV’, mas de forma leve, sempre com alguma nostalgia. E a nossa fonte, o acervo da TV Brasil, é um dos maiores acervos audiovisuais do País, conservado a duras penas por uma equipe pequena, mas dedicada. Então, é realmente importante participar de um projeto que dá acesso ao grande público a esse material, é uma iniciativa muito alinhada à missão de uma emissora pública.
3 – Qual é a diferença entre o fazer jornalístico no RS e no Rio de Janeiro?
Acho que a informalidade é uma característica bem marcante do carioca. Isso me chamava atenção desde o meu primeiro estágio, no Portal Acionista, um site voltado para informações do mercado financeiro. Quando eu entrevistava algum economista ou corretor do Rio, eles geralmente se despediam com “um beijo, amor.” Eu ficava pensando “Oi?! Que intimidade é essa?”. Aos poucos, fui percebendo que era cultural mesmo. Essa informalidade tem prós e contras. Muitas vezes a correria da redação fica mais leve com isso, mas às vezes descamba para não cumprimento de prazos, assessor que acha que porque tem uma certa amizade pode te pedir para aliviar na cobrança de uma pauta. Tem que ter um certo jogo de cintura para entender como funcionam as relações em cada lugar.
Outro aspecto sobre trabalhar no Rio de Janeiro é o quanto estamos próximos de pautas nacionais. Logo que cheguei no Rio, eu estava ainda em treinamento como repórter para TV e fui acompanhar como produtora o julgamento dos assassinos da juíza Patrícia Acioli, morta por milicianos em 2011. Quando entrei no tribunal foi passando um filme na minha cabeça, com todas as matérias que li ou assisti sobre o crime. Era um crime chocante, que teve muita repercussão, mas completamente distante de mim. De repente, eu estava ali, a poucos metros do assassino, vendo ele ser condenado. A Marielle Franco eu havia entrevistado antes de ela ser candidata a vereadora, quando aprovaram aqui uma lei no Rio que garante às parturientes o direito ao acompanhamento de uma doula no parto. Poucos anos depois, eu estava cobrindo as manifestações que tomaram o País, após o assassinato dela. É realmente muito forte ter acompanhado tão de perto toda essa trajetória. A cobertura factual no Rio é realmente muito quente, do nada o dia tranquilo se transforma numa loucura, e tudo tem um potencial enorme de repercussão nacional.
Por fim, não dá pra deixar de destacar a centralidade da pauta segurança pública aqui no Rio. Mesmo que você não seja o setorista de Polícia, Geral, Segurança, isso vai afetar a rotina de toda a Redação. Seja porque em algum dia você vai ser o repórter mais próximo da cena de um crime e vão te mandar pra lá, mesmo que você tenha saído da Redação com uma pauta de bichinhos na mão, ou porque o seu convidado de uma entrevista ao vivo não chega no estúdio porque a cidade parou com alguma operação. Não sei quantas redações em Porto Alegre possuem colete à prova de balas. Aqui no Rio, todas têm. Mesmo trabalhando na TV Brasil, que não tem a linha editorial voltada para a cobertura policial, eu já saí pra cobrir a ‘Corrida Pela Paz’ e, de repente, estava em meio a um tiroteio no Alemão [favela carioca]. No período em que fiquei quase totalmente dedicada à cobertura de cultura, a violência afetava meu trabalho, porque, como a gente costuma dizer aqui, “a pauta de cultura do dia é a primeira vítima da bala perdida”. Era toda a semana tendo que remarcar alguma pauta que tivesse a equipe desviada para cobrir algum caso de violência. Acho que o grande desafio nesse aspecto é não cair na espetacularização da violência, não se limitar a cobrir apenas o factual, que precisa ser registrado, obviamente, mas buscar sempre a discussão das causas dessa violência, o olhar da população mais suscetível, que mais sofre com ela.
4 – Quais são os principais desafios de fazer Comunicação Pública?
O desafio já começa por precisar explicar o que é Comunicação Pública, que é erroneamente, muito confundida com a Comunicação Estatal. Comunicação Pública não é simplesmente comunicar atos do governo, ou fazer a assessoria de imprensa de órgãos públicos, ambas atividades também fundamentais para a transparência em um país democrático. A Comunicação Pública é aquela que tem como foco o interesse do cidadão, que tem espaço para diferentes vozes da sociedade, sem ingerência política, nem pressão de anunciantes. Ainda estamos longe desse ideal, mas é preciso trabalhar sempre em direção a essa autonomia. Essa confusão não é à toa, não tem como esse conceito ser claro, se até muito pouco tempo atrás nunca havíamos tido um sistema nacional de Comunicação Pública no Brasil. Temos diversas emissoras públicas muito conceituadas pelo País, como a nossa querida TVE e Fundação Piratini, a TV Cultura, a antiga TVE do Rio de Janeiro, que veio a integrar a EBC. No entanto, até o surgimento da EBC, em 2007, nunca existiu nenhum sistema integrado, nacionalmente, de Comunicação Pública. Eu entrei no primeiro concurso da EBC, então, nós mesmos, os profissionais da EBC, precisamos exercitar o nosso olhar para não reproduzir antigos vícios da comunicação privada, como priorizar a pressa de produção, os níveis de audiência, em detrimento da qualidade e credibilidade do que estamos informando.
E, nesse momento, o desafio é ainda maior, já que estamos assistindo a um desmonte da Comunicação Pública brasileira, ainda tão incipiente. Não é coincidência a EBC entrar no Plano Nacional de Desestatização (PND), no mesmo período em que anunciam demissão de funcionários muito qualificados da TVE aí no Rio Grande do Sul, por exemplo. É um momento de grandes retrocessos na Comunicação do País. Qualquer país democrático mais organizado possui um sistema de Comunicação Pública, trabalhando junto com as empresas privadas. Não é apenas a BBC da Inglaterra, Alemanha, Itália, até os Estados Unidos possuem suas emissoras. Temos que trabalhar por uma maior capilaridade, por atingir um público ainda maior, não retroceder. Ainda é um momento de ainda mais trabalho, para firmarmos este projeto.
5 – Quais são os seus planos para daqui a cinco anos?
Com certeza, me vejo na EBC nos próximos cinco anos e mais além, continuando a ajudar a construir a história da Comunicação Pública brasileira. Espero produzir novos programas também. Temos um projeto em desenvolvimento que vai envolver viagens, mostrar alguns caminhos do Brasil que o grande público não tem acesso. Com a pandemia esse projeto teve que ser postergado, mas acredito que no ano que vem ele possa sair do papel. Gostaria muito que voltássemos a ter programas sobre cinema nacional na TV Brasil, como já tivemos o ‘Quintas e Cinema’, que eu apresentava, o ‘Revista de Cinema’, o ‘Curta em Cena’. Por muitos anos, já fomos o canal de TV aberta que mais exibia filmes nacionais, então, é uma vocação natural para a TV Brasil falar, refletir e divulgar a produção nacional, que sempre foi tão presente na programação do canal. E quando voltarmos a ter algum programa assim, espero fazer parte, seja como apresentadora, produtora, editora, jogando em quantas posições forem necessárias. Além do meu lado jornalista, pretendo continuar me dedicando ao teatro (saudades de uma plateia cheia, bem aglomerada!) como atriz amadora, mas também tenho me aventurado como dramaturga. Em 2018, eu estava escrevendo uma peça sobre encarceramento feminino, mas não dei conta de seguir o projeto durante o isolamento. Aos poucos, venho me organizando para voltar a escrever e, nos próximos cinco anos, pretendo ver essa peça produzida e rodando o País, porque se é pra sonhar, não dá pra sonhar pequeno, né?! Às vezes, bate uma saudade da correria do telejornalismo diário, mas neste momento não me vejo ali dentro. Porém, quem sabe algum dia eu volto para aquela loucura?!