Cinco Perguntas

Cinco perguntas para Eliege Fante

Jornalista é associada ao Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul

1 – Quem é você, de onde vem e o que faz?

Sou Eliege Fante, graduei-me pela Universidade de Passo Fundo (UPF) em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo em 2001. Natural de Passo Fundo, durante a faculdade integrei o Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas (Gesp), pelo qual tomei contato com os temas ambientais. Eram os mesmos de hoje, só que agravados, como poluição das águas, do ar e dos solos, transgênicos e agrotóxicos. Na época, a professora Ana Carolina Martins da Silva, associada ao Gesp e à Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), disse-me que, no futuro, a ecologia e o meio ambiente dominariam a pauta e eu deveria me preparar. Ana é uma das minhas amigas, que até hoje me inspira e orienta.

Recém-formada, trabalhei em jornal impresso e rádio em Carazinho com este olhar diferenciado. Além disso, busquei me aprofundar no tema acompanhando pela internet a atuação do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), ao qual me associei em 2007, após a mudança para Porto Alegre. Desde então, atuo voluntariamente nas atividades da entidade, como os debates mensais ‘Terças Ecológicas’ e o site da EcoAgência. Também gravei alguns programas de rádio ‘Sintonia da Terra’, que o NEJ-RS veiculava na rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) há uns anos, e sou diretora de Relações Institucionais na atual gestão.

Estou freelancer e sou Microempreendedora Individual (MEI) desde 2020, quando concluí o doutorado em Comunicação e Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom) da Ufrgs e vi escassear os concursos públicos, em especial para os cargos do magistério superior. A minha dissertação foi sobre as representações sociais do bioma Pampa veiculadas por dois jornais do Estado, enquanto a tese abordou o discurso do desmonte da política ambiental do Rio Grande do Sul. Além disso, sigo participando do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental, mantido pela Ufrgs e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o que possibilita a produção de artigos para revistas científicas com as colegas pesquisadoras, assim como análises individuais no Observatório do Jornalismo Ambiental, mantendo ativo meu lado acadêmico.

O lado engajado presente no Jornalismo segue com a participação, por meio do NEJ-RS e da Agapan, nas ações e mobilizações socioambientais articuladas entre os movimentos e organizações da sociedade civil. Ainda sou assessora de Comunicação da rede de pesquisa científica Campos Sulinos, sediada no Laboratório de Ecologia Quantitativa (Ecoqua), onde aprendo e comunico sobre a conservação da biodiversidade junto aos pesquisadores mais conceituados na área, como o coordenador da rede e do laboratório, o professor e doutor Valério De Patta Pillar, um dos cientistas mais influentes do mundo conforme o ranking global elaborado pela Universidade Stanford, dos Estados Unidos.

2 – Por que você escolheu o Jornalismo?

A dimensão generalista do Jornalismo possibilita a pesquisa, o estudo e o aprendizado constante. Nossa profissão é intelectual, temos aulas com professores das demais ciências, sejam humanas, exatas ou sociais, que vão muito além da técnica a ser empregada nas redações das mídias. Muita gente parece desconhecer e/ou menosprezar ao ponto de cassar o nosso diploma, o que ocorreu em 2009, com o Supremo Tribunal Federal (STF). Encontramos pessoas muito importantes e, durante ou após as publicações, aproveito para participar de cursos em outras áreas, como Biologia, Saúde Planetária, Agroecologia, águas subterrâneas e Histórias e Culturas Indígenas.

Acompanhar os movimentos sociais e a articulação com os demais setores, como Ciência e Política, faz a diferença na escrita das publicações e também para ampliar a visão de mundo mesmo. Nas redações hegemônicas o ritmo é alucinante, mas a nossa profissão exige um preparo antes de apresentar a pauta ou ao receber ela da chefia. Entretanto, dificilmente percebemos que este tempo de preparo foi permitido, com maior frequência se vê no Jornalismo Independente, que compreende melhor o papel da profissão para uma sociedade que pretende ser democrática e igualitária.

O Jornalismo pode aproximar mundos ou ajudar a criar e manter barreiras artificiais. Por isso, considero grande a importância das assessorias de movimentos e organizações sociais que apreciam a complexidade e o pluralismo dos temas, ainda que colegas não considerem determinados tipos de assessoria como Jornalismo. Não é raro as comunicações das entidades ambientais produzirem reportagens mais completas e com fontes mais diversificadas do que os meios de Comunicação que se autointitulam Jornalismo profissional. Nós, jornalistas, levamos a sério o interesse público e as audiências deveriam saber que chefes e editores das redações, muitas vezes graduados em outras áreas, alteram os textos, comprometendo a qualidade da prestação do nosso serviço. O trabalho jornalístico e de pesquisa que fiz para a Fundação Rosa Luxemburgo, por exemplo, é improvável que saísse em uma redação hegemônica e não apenas pela extensão da pesquisa, por tratar da questão da água relacionando a Amazônia (Norte) ao Pampa (Sul), nos aspectos do agronegócio e geração de energia por hidrelétricas.

3 – Você foi uma das organizadoras do minimanual ‘Como cobrir temas indígenas’. Na sua avaliação, qual o maior ensinamento que o conteúdo transmite?

Que não existe indígena verdadeiro e nem lugar de “índio” – aliás o certo é “indígena”. E mais coisas que representam o contrário do que aprendemos na família e na escola: que não há só um mundo com um jeito certo de desenvolver; que existem modos de viver coletivos, atentos às consequências e ao menor dano aos demais seres da natureza por uma questão de compaixão, mas também de inteligência, para garantir a sobrevivência da família, da comunidade e da espécie humana; e o que está em jogo com o Antropoceno – termo usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história do planeta.

O guia ainda destaca a economia verde e a bioeconomia como supostas soluções para reduzir os efeitos das mudanças climáticas, ou descarbonizar, como dizem, sem repensar o modo de viver energívoro que o Brasil segue da sociedade europeia e estadunidense. Além disso, pondera que a nossa escuta ativa, empatia, sensibilidade e capacidade de compreensão estão em xeque: temos permeabilidade suficiente para aprender com os povos originários e para confrontar as impressões deles com os dogmas do mercado e da macropolítica? Esses dois setores mal interagem, nem reconhecem os méritos das demais áreas da sociedade. 

A prática de julgar e criticar estreita o próprio campo de visão e desperdiça possibilidades de encontrarmos respostas emergenciais para a mitigação e a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

4 – Você integra o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul. Atualmente, qual é o maior desafio encontrado pelos jornalistas na cobertura de pautas ambientais?

O maior desafio é olhar pra lista de adversidades da nossa profissão e não desistir, é todo dia dizer algo como “tamos junto vambora”. Quer dizer, é uma profissão de riscos. Em 2022, houve 376 casos de agressões a profissionais, ataques à categoria e a veículos de comunicação, sendo que 2021 foi o pior ano desde que a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) iniciou a contabilização desses números (1990).

Nossa área pesquisa as relações de poder, reporta os discursos em disputa. Por isso, a editoria que trabalha bem sofre pressões de todo tipo e a ambiental tem suas nuances, pois há pressões internas também. Há pares que veem como uma pauta menor, chamam os profissionais dedicados a ela de “ecochato”, dizem que você devia ir para a Biologia, dão pouco espaço nas mídias e menos tempo pra fazer, sendo que dá uma trabalheira e rende bastante.

Além do piso da categoria que não dá conta do sustento, a remuneração freelancer não é melhor nem contamos com o mesmo prestígio que o Jornalismo Esportivo ou Político recebem, por exemplo. Sendo que também precisamos de recursos e infraestrutura para reportar, nem tanto pela questão das tecnologias, mas pelo deslocamento em equipe, pelas distâncias a serem percorridas, porque é preciso ir aos territórios, aos distintos lugares onde se encontram as fontes a serem ouvidas e, os fatos, descritos.

5 – Quais são os seus planos para daqui a cinco anos?

Estar mais apta a compreender os saberes dos povos, ampliar estes conhecimentos e estender pontes mais eficientes e dinâmicas com os público de interesse, seja das mídias, seja do ensino e da pesquisa. 

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