Cinco Perguntas

Cinco perguntas para Flávio Damiani

Jornalista é autor do livro ‘Damiani em Crônicas’

1 – Quem é você, de onde vem e o que faz?

Venho do campo, do minifúndio onde nasci e passei os meus primeiros anos no meio italiano e da mãe alemã. Foi ali que comecei a distinguir as diferenças, observando atitudes, conversas e ações que construíam o cotidiano das pessoas que me cercavam e, sem me dar conta, já fazia uma leitura crítica do comportamento pela observação, colocando-me no lugar do popular.   

Tive uma mãe questionadora, diferente do meu pai que era um piadista. Ela irônica, ele divertido. Acho que juntei as duas coisas para me encaminhar às vezes irresponsável, sem rancores, com um jeito próprio de quem faz troça, avançando sem garantias e recuando no momento certo.

Vivi infância e adolescência na pior fase política brasileira. A ditadura militar foi um golpe à liberdade e ao conhecimento. Procurei me afastar da ideologia dominante, mas precisei servir o Exército e lá me compliquei muitas vezes por pensar diferente deles. Foi lá que tive certeza de que a forma como eles agiam não batia com o que eu pensava. Hoje posso dizer que moro numa ilha. Florianópolis e a Lagoa da Conceição me dão a qualidade de vida que sempre procurei. Estou bem aqui, estudando Filosofia e frequentando o Programa de Pós-graduação em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. Aceitaram-me lá na incumbência de desvendar segredos escondidos na análise crítica das narrativas e do discurso jornalístico, em uma disciplina isolada.  

2 – Por que optou pelo Jornalismo?

Dei baixa no quartel e fui convidado para trabalhar no Jornal da Tarde, em Passo Fundo. Da Tarde era só no nome, porque às vezes ficava pronto de madrugada e circulava pela manhã, quando circulava. Era eu, o redator-chefe e um rato na redação. Eu, naquela época, escrevia poemas e alguns contos no Grupo Literário Nova Geração, que se convencionou chamar mais tarde de “Sociedade dos Poetas Mortos de Passo Fundo”, todos foram sumindo.

Gostei da experiência no jornal, senti-me realizado embora tenha trabalhado três meses sem receber nada. Mas, em seguida, ingressei na carreira pela rádio Planalto e passei a ser correspondente do Correio do Povo, da Zero Hora e, mais tarde, da rádio Gaúcha e da RBSTV, em Porto Alegre. O Jornalismo me deu muitas conquistas e um amplo conhecimento. Também abriu oportunidades desde cedo. Quando eu ainda nem pensava em trabalhar em Porto Alegre e percorria as estradas poeirentas e barrentas do Interior atrás de notícias e de informações, vi-me envolvido na primeira grande cobertura da minha carreira, o início da formação do Movimento dos Sem Terra no Brasil.

Em abril de 1981, eu me deslocava pela estrada que liga Passo Fundo a Ronda Alta acompanhado de uma equipe de TV com o cinegrafista Ipácio Carolino e o operador João Almeida, quando me deparei com três barracos na beira do caminho, no cruzamento com outra estrada que vinha da cidade de Sarandi. Era uma ligação de terra mal conservada. Achei de início que se tratava de uma tribo nômade de índios Guaranis, comum por aquelas bandas, mas o fato de estarem em barracos cobertos de lona preta, e não de capim como de costume, despertou o interesse de descer e perguntar o que eles faziam ali. Disseram que tinham sido expulsos das reservas indígenas, onde plantavam nas terras dos Caingangues e que não tinham para onde ir.

Mais tarde, encontrei o Padre Anildo Fritzen, pároco de Ronda Alta, que me revelou o que tinha por trás daquela gente. Confidenciou que estava nascendo lá o maior acampamento de resistência dos agricultores sem terra do Brasil, que ficou conhecida como a Encruzilhada Natalino. Voltei lá e fiz o registro para o jornal Zero Hora, do qual eu era correspondente, e para a então TV Gaúcha, da qual eu era repórter do Interior sediado na TV Umbu de Passo Fundo. A série de reportagens da equipe da ZH da qual eu fazia parte foi contemplada com o ‘Prêmio Esso de Jornalismo’ daquele ano. As reportagens de TV renderam os prêmios ‘ARI’ e ‘Direitos Humanos’. Foi um debut em alto estilo.

Algum tempo depois contribuí na produção do filme ‘Terra Para Rose’, com direção da cineasta Tetê Moraes. Um filme/documentário com narração da atriz Lucélia Santos, que conta a história de uma campesina atropelada por um caminhão em outubro de 1987 na BR-386 em Sarandi, quando participava de uma manifestação pela reforma agrária. Na sequência veio o filme/documentário ‘O Sonho de Rose’, com música do Chico Buarque destacando a história do filho dela, Marcos Tiarajú, que tinha menos de dois anos quando a mãe morreu, ele hoje é médico formado em Cuba.

Mais tarde fui morar em Porto Alegre, trabalhando na central do Interior da TV e como repórter da rádio Gaúcha. Fui editor regional da Rede Globo e coordenei por três anos o ‘Jornal do Almoço’. Depois fui pra direção de jornalismo da Rede Bandeirantes e, em 2000, abandonei as redações indo para o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) com a tarefa de estruturar a Assessoria de Comunicação. Nos oito anos de Ministério Público fundei, em parceria com jornalistas da Justiça de todo o País, o Fórum Nacional de Comunicação e Justiça (FNCJ), criamos o Congresso Brasileiro de Comunicação e Justiça (Conbrascom) e o ‘Prêmio Nacional de Comunicação e Justiça’. O Fórum também foi responsável pela criação da Rádio e TV Justiça que, sem dúvidas, aproximou a Justiça da sociedade.

Ao sair da presidência do Fórum em 2008, escrevi, em parceria com a jornalista Edvânia Kátia, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) do Maranhão, o livro ‘A Comunicação na Justiça Brasileira’, reunindo textos e depoimentos dos envolvidos na criação deste movimento de jornalistas, que se mantém até hoje com encontros anuais e premiações aos trabalhos que se destacam nas campanhas de divulgação do Judiciário e do Ministério Público no País.   

3 – Você é autor do livro ‘Damiani em Crônicas’, que reúne 50 crônicas das mais de 300 que você tem publicadas em sites, blogs e livros. O que o inspira para escrever esses textos?

O casamento com a crônica se deu adulto, mas sempre namorei o estilo desde a adolescência. Nunca fui um devorador de livro, mesmo porque não sou traça, mas traçava Clarice Lispector, Cecília Meireles, Cora Coralina, Eça e Rachel de Queiroz, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Rubem Braga, Fernando Sabino, Drummond, Erico Verissimo, Dyonélio Machado, Mário Quintana, até as poesias do João Cabral de Melo Neto me encantavam. Hoje não saberia recitar nenhuma. Eram os livros que eu tinha acesso, ou na biblioteca da escola ou na casa dos outros. Na minha casa entravam revistas e jornais, na infância li poucos livros e os que tinham eram geralmente escritos em italiano.

O gosto pela pena curta e as frases ligeiras um dia desabrochou de fato e passei a escrever crônicas que são juntadas no cotidiano, nas conversas, nas observações ou no ouvido afinado andando pelas ruas de olho nos gestos e nas conversas dos outros. Não me vejo fora dela, não me imagino escrevendo um romance, por exemplo. O cronista tira sarro de si mesmo, faz bullying com estilo, um “mentiroso com arte”, como dizia o Ariano Suassuna. O livro ‘Damiani em Crônicas’ é um resumo dessas vivências, desta veia cronista de divertir as pessoas com histórias inusitadas ou pouco convencionais cheias de tramas e estilos para atrair o leitor. Não sei se consigo tanto, mas tento.

4 – Além da Comunicação, você tem formação em Pedagogia. Como surgiu o interesse por essa área?

Sim, acho que a Pedagogia veio para eu pagar os meus pecados cometidos como aluno nas escolas públicas por onde passei. Pior é que me dei bem como professor e consegui levar o Jornalismo para dentro da sala de aula, fazendo com que os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) tivessem uma visão crítica do cotidiano, contassem suas histórias de maneira a entender o significado da existência e porque as pessoas têm o dom de mentir e trair a confiança alheia. Que o digam as professoras Cristina Popovic, Simone Ferreira e Cintia Alberton, do Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores (CMET) Paulo Freire, que me acompanharam no projeto da EJA, além da minha orientadora no Trabalho de Conclusão da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Aline Cunha Della Libera, que teve paciência para me aguentar.    

5 – Quais são os seus planos para daqui a cinco anos?

Daqui a cinco anos terei 70 e nem sei por onde vou estar. Mas na vida sempre se tenta arrumar alguma coisa pra se incomodar, não sou lá de esquentar banco.

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