{"id":16741,"date":"2015-03-20T16:23:35","date_gmt":"2015-03-20T19:23:35","guid":{"rendered":"https:\/\/ondawebhost3.com.br\/coletiva\/sem-categoria\/adolfo-gerchmann-a-fotografia-impregnada\/"},"modified":"2015-03-20T16:23:35","modified_gmt":"2015-03-20T19:23:35","slug":"adolfo-gerchmann-a-fotografia-impregnada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ondawebhost3.com.br\/coletiva\/perfil\/adolfo-gerchmann-a-fotografia-impregnada\/","title":{"rendered":"Adolfo Gerchmann: A fotografia impregnada"},"content":{"rendered":"<p><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Adolfo Gerchmann | Cr\u00e9dito: Rafael Serpa Gerchmann<\/div>\n<p>Somente amigos privilegiados sabem que na condu\u00e7\u00e3o de um dos restaurantes mais respeitados de Porto Alegre, o Orquestra de Panelas, est\u00e1, na verdade, algu\u00e9m que, antes de qualquer coisa, orgulha-se de ser fot\u00f3grafo. E fot\u00f3grafo tamb\u00e9m dos mais respeitados, embora h\u00e1 tempos afastado do dia a dia desta profiss\u00e3o. Adolfo Gerchmann trabalhou em jornais di\u00e1rios e na sucursal da revista Veja em seus melhores \u2013 melhores dela, revista \u2013 momentos, e hoje dedica boa parte de suas aten\u00e7\u00f5es ao restaurante, mas n\u00e3o deixa de revelar, em cada gesto ou suspiro, que a fotografia est\u00e1 impregnada nele.<br \/>Nascido em Porto Alegre, em 30 de maio de 1953, o filho de Bernardo Gerchmann e Clara W. Gerchmann, ambos de origem judia, lembra que a gera\u00e7\u00e3o dos seus pais era guiada pelo medo da persegui\u00e7\u00e3o. Morava no bairro Bom Fim, pr\u00f3ximo \u00e0 Rua Ramiro Barcelos, onde havia grande concentra\u00e7\u00e3o de judeus e de negros. &#8220;Os exclu\u00eddos moravam mais ou menos juntos&#8221;, brinca. Seu pai, Bernardo, foi jogador de futebol, atleta do Sport Club Internacional na \u00e9poca do &#8220;Rolo Compressor&#8221;. &#8220;Meu pai era reserva, dizia que n\u00e3o foi um grande jogador, mas s\u00f3 jogou com os melhores&#8221;, relata.<br \/>A inf\u00e2ncia ficou marcada pelo futebol de cal\u00e7ada, pois o campo da regi\u00e3o era reservado para os mais velhos. Al\u00e9m disso, n\u00e3o consegue esquecer o ritual de seu pai no fim da tarde de domingo. &#8220;N\u00e3o consigo me desvencilhar do r\u00e1dio. Lembro que ele ouvia o programa &#8220;Grande Rodeio Coringa&#8221;, tomando chimarr\u00e3o, e eu ficava ouvindo com ele.&#8221; Lembra tamb\u00e9m de &#8220;seu Alfredo&#8221;, que entregava p\u00e3es no armaz\u00e9m de sua av\u00f3 materna com uma caminhonete Ford:\u00a0 &#8220;Eu nunca esqueci o nome do cara, e quando passava em casa ele me levava junto para entregar o restante das encomendas&#8221;.<br \/>Estudou desde o jardim de inf\u00e2ncia no col\u00e9gio Israelita e l\u00e1 concluiu o ensino fundamental. Depois disso, fez o ensino m\u00e9dio no Col\u00e9gio Ros\u00e1rio. Foi casado com a jornalista Angela Rahde, com quem teve a filha Suzana, que \u00e9 advogada. H\u00e1 25 anos, est\u00e1 em uni\u00e3o est\u00e1vel com Liese Serpa, soci\u00f3loga por forma\u00e7\u00e3o. Com ela, teve dois filhos: Arthur, que pretende estudar Cinema, e Rafael, estudante de Design.<br \/><strong>Caminhada no Jornalismo<\/strong><br \/>Quando foi para a faculdade, em 1970, Adolfo ingressou no curso de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas, na Unisinos, onde permaneceu durante tr\u00eas anos. Ia bem at\u00e9 que decidiu trocar para Jornalismo, ali mesmo, na Unisinos. Ap\u00f3s um ano e meio na nova gradua\u00e7\u00e3o, fez vestibular novamente e foi para a PUC, onde se formou em 1978. Atrav\u00e9s da indica\u00e7\u00e3o de um colega, come\u00e7ou seu primeiro est\u00e1gio no fim de 1976, na Companhia Jornal\u00edstica Caldas J\u00fanior, que ent\u00e3o editava tr\u00eas jornais: Correio do Povo, Folha da Tarde e Folha da Manh\u00e3. &#8220;Tive o prazer e a felicidade de trabalhar com o <a href=\"http:\/\/www.coletiva.net\/perfil\/2007\/09\/mestre-que-ilumina\/\" target=\"_blank\">Marques Leonam<\/a> que, como rep\u00f3rter, foi um dos grandes caras com quem eu convivi&#8221;, relembra. &#8220;A conduta dele foi sempre muito digna. Na reda\u00e7\u00e3o ele tinha uma postura admir\u00e1vel. Era um cara ereto, digno, um cara que eu sempre admirei&#8221;, completa. Depois de um ano estagiando, foi contratado na Caldas J\u00fanior, onde atuou at\u00e9 1982.<br \/>Nesta \u00e9poca, come\u00e7ou a fazer alguns trabalhos como <em>freelancer<\/em> para as revistas Manchete e Placar. A partir destas experi\u00eancias, foi contratado para trabalhar na sucursal ga\u00facha da revista Veja, onde ficou at\u00e9 1988 at\u00e9 ser &#8220;convidado a se retirar&#8221;. Depois disso, trabalhou mais alguns anos sem v\u00ednculo empregat\u00edcio no projeto conhecido como Vejinha, uma publica\u00e7\u00e3o regional que circulava encartada com a revista Veja. Realizou diversos trabalhos para outras publica\u00e7\u00f5es da Editora Abril e para o Estad\u00e3o, encerrando este ciclo em 1992.<br \/>Quando trabalhou na Veja, passou pela transforma\u00e7\u00e3o da impress\u00e3o em preto e branco para o processo a cores. Este foi um dos primeiros grandes desafios de sua carreira, pois a experi\u00eancia de fotografar em preto e branco \u00e9 totalmente diferente com a cor. &#8220;Acho que eu aprendi a ess\u00eancia do Jornalismo, mesmo, na Veja. O Jornalismo \u00e9 uma coisa de equipe. Eu aprendi que a fotografia tamb\u00e9m precisa ter o in\u00edcio, o meio e o fim. Se o editor vai usar ou n\u00e3o o teu trabalho, \u00e9 outra hist\u00f3ria, mas tu deve registrar tudo&#8221;, enfatiza.<br \/>Naqueles anos em que transpirava reda\u00e7\u00e3o, o ambiente estava sempre em ebuli\u00e7\u00e3o, com o ru\u00eddo repetitivo das m\u00e1quinas de escrever e a movimenta\u00e7\u00e3o de pessoas. S\u00e3o lembran\u00e7as de um bom passado; atualmente, compartilha da ideia de <a href=\"http:\/\/www.coletiva.net\/perfil\/2007\/09\/de-letras-tracos-e-jazz\/\" target=\"_blank\">Luis Fernando Verissimo<\/a> sobre o <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/teclado_silencioso\" target=\"_blank\">teclado silencioso<\/a>: &#8220;as reda\u00e7\u00f5es silenciosas&#8221; de hoje t\u00eam outra rela\u00e7\u00e3o com o fazer jornal\u00edstico, onde cada um fica em seu computador. Ou, como repete um colega jornalista, insistem em registrar tudo sobre a China e nada sobre a esquina. &#8220;Na minha concep\u00e7\u00e3o&#8221;, lamenta Adolfo, &#8220;falta um olhar para a cidade, falta um olhar para o Estado, muitas coisas passam despercebidas&#8221;.<br \/><strong>Rep\u00f3rter Fotogr\u00e1fico ou Fotojornalista?<\/strong><br \/>As grandes refer\u00eancias de Adolfo na fotografia s\u00e3o Pedro Martinelli e Nico Esteves. A fotografia, ensina ele, exige uma entrega de corpo e alma. &#8220;Tu tem que acreditar em ti e ir atr\u00e1s, tem que registrar o momento de todos os jeitos poss\u00edveis&#8221;, aconselha. A denomina\u00e7\u00e3o defendida por ele para definir o profissional da \u00e1rea n\u00e3o \u00e9 fotojornalista, e sim rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico, pois acredita que o fot\u00f3grafo tamb\u00e9m est\u00e1 passando uma informa\u00e7\u00e3o e tem que transmitir um olhar da situa\u00e7\u00e3o.<br \/>A redemocratiza\u00e7\u00e3o do Uruguai e a primeira caminhada do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram trabalhos extremamente marcantes na sua trajet\u00f3ria, realizados na Veja. Nestas coberturas, aprendeu que \u00e9 necess\u00e1rio abstrair a emo\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao fato, para entender e mostrar o que acontece, sem nenhum envolvimento, pois o ju\u00edzo \u00e9 do leitor. Na caminhada do MST, ele diz que foi intenso ver homens e mulheres com seus filhos naquela situa\u00e7\u00e3o: ao chegar no conforto do hotel, chorou depois de revelar as fotos. Na redemocratiza\u00e7\u00e3o do Uruguai, lembra de um registro em especial: jovens e intelectuais, que haviam sido mandados embora do pa\u00eds, retornando com suas bandeiras, abra\u00e7ando familiares e beijando o ch\u00e3o da sua terra.<br \/>Tamb\u00e9m tem lembran\u00e7as do clima ainda ditatorial que pairava na primeira elei\u00e7\u00e3o uruguaia. A contagem dos votos foi no Est\u00e1dio Centen\u00e1rio, em Montevid\u00e9u, que estava cercado por soldados do ex\u00e9rcito e canh\u00f5es, lembrando uma pra\u00e7a de guerra. &#8220;Parecia um campo de concentra\u00e7\u00e3o&#8221;, diz. Outro registro que est\u00e1 na mem\u00f3ria de Adolfo \u00e9 o de sua primeira e \u00fanica capa na Veja, retratando Luma de Oliveira. A ex-modelo havia ganho o t\u00edtulo de Miss Playboy na China e j\u00e1 tinha presen\u00e7a confirmada em um baile de Carnaval de Porto Alegre. &#8220;Foi a \u00fanica capa que eu fiz, e n\u00e3o foi feita em est\u00fadio&#8221;, lembra, sem esconder a satisfa\u00e7\u00e3o pelo trabalho realizado.<br \/><strong>Distanciamento da fotografia<\/strong><br \/>Adolfo explica que a fotografia est\u00e1 impregnada nele e que, ap\u00f3s quase 10 anos na revista Veja, passou por uma ruptura muito grande com o Jornalismo e com a pr\u00f3pria foto. &#8220;Eu sempre disse: eu nunca tive amante, meu amante era meu equipamento&#8221;, refor\u00e7a. Quando saiu das reda\u00e7\u00f5es, em 1992, descobriu atrav\u00e9s de um amigo que o Theatro S\u00e3o Pedro estava abrindo uma concorr\u00eancia para explora\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 naquele espa\u00e7o. Elaborou uma proposta com um vi\u00e9s cultural, tendo como parceiro um chefe de cozinha argentino, que desenvolveu a parte gastron\u00f4mica. Eles ganharam. &#8220;De um dia pro outro, eu estava atr\u00e1s do balc\u00e3o e a m\u00e1quina de fotografar estava em casa&#8221;, desabafa.<br \/>Com o passar do tempo, algo seguia incomodando Adolfo, mas ele simplesmente n\u00e3o conseguia entender o que era aquilo, o que estava gerando tamanho desconforto. Quando a cidade de S\u00e3o Paulo completou 450 anos, o fot\u00f3grafo <a href=\"http:\/\/www.coletiva.net\/perfil\/2013\/02\/entre-fotos-e-livros\/\" target=\"_blank\">Fernando Bueno<\/a> decidiu fotograf\u00e1-la durante 24 horas no dia do anivers\u00e1rio, recrutou cerca de 50 fot\u00f3grafos e chamou Adolfo para fazer o <em>making off<\/em> do projeto. &#8220;E a\u00ed eu vi o que estava me incomodando: era n\u00e3o fotografar. Ent\u00e3o voltei \u00e0 ativa.&#8221;<br \/>Atualmente, sem descuidar-se das exig\u00eancias do restaurante que mant\u00e9m com seu colega jornalista M\u00e1rio de Santis, est\u00e1 se dedicando a um projeto com o tamb\u00e9m jornalista Renato Lemos Dalto. \u00c9 sobre &#8220;Os Cantos de Cima da Serra&#8221;, que ele considera uma natureza encantada, em uma regi\u00e3o bel\u00edssima. &#8220;O objetivo \u00e9 mostrar a natureza, o homem e como esse homem vive nesses lugares. No fim, \u00e9 uma grande reportagem. E t\u00e1 ficando bem legal. Acho que no final do ano fica pronto&#8221;, conta. Ele diz que n\u00e3o se imagina em outra profiss\u00e3o, pois o profissional n\u00e3o \u00e9 jornalista s\u00f3 quando est\u00e1 dentro de uma reda\u00e7\u00e3o, \u00e9 jornalista sempre.<br \/><strong>Fora da reda\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>A vit\u00f3ria para explorar o caf\u00e9 do Theatro S\u00e3o Pedro deu origem ao &#8220;Orquestra de Panelas&#8221;. Uma das a\u00e7\u00f5es realizadas por ele neste per\u00edodo foi uma homenagem ao ilustre amigo Mario Quintana. O Theatro recebeu uma exposi\u00e7\u00e3o de originais do escritor e, a partir disso, Adolfo decidiu incorporar um h\u00e1bito que ele presenciou na \u00e9poca em que trabalhava na Caldas J\u00fanior: &#8220;O Mario ia at\u00e9 o andar da cantina, pedia uma ta\u00e7a de caf\u00e9 preto, um quindim e uma fatia de presunto. Na homenagem, n\u00f3s fizemos um expresso, um quindim e, ao inv\u00e9s da fatia de presunto, um bilhete sobre a obra. E foi um sucesso&#8221;, relata.<br \/>Ap\u00f3s a experi\u00eancia no Theatro, Adolfo participou de uma concorr\u00eancia para trabalhar no Caf\u00e9 dos Cataventos, da Casa de Cultura Mario Quintana, e ganhou. &#8220;Eu sempre acho que esses espa\u00e7os t\u00eam que fazer coisas mais integradas com a cidade. Eu acho que Porto Alegre n\u00e3o tem uma integra\u00e7\u00e3o com as pessoas, elas n\u00e3o fazem parte da cidade, falta uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima. Adoraria que tivesse mais isso, como conseguimos fazer no caf\u00e9 da Casa de Cultura.&#8221;<br \/>Al\u00e9m do Theatro S\u00e3o Pedro e da Casa de Cultura Mario Quintana, tamb\u00e9m gerenciou o caf\u00e9 do Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Nesta fase, come\u00e7ou a surgir a vontade de ter um estabelecimento na Rua Padre Chagas, mas n\u00e3o tinha o dinheiro necess\u00e1rio. Quando encontrou um lugar, levou o amigo Mario de Santis, que conheceu no Estad\u00e3o e adora gastronomia, para saber o que ele achava. Mario disse que tinha recursos na poupan\u00e7a e poderia emprest\u00e1-los para Adolfo, que o convidou para ser parceiro no neg\u00f3cio. Assim, em 2001, come\u00e7ou a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a em uma sociedade que dura at\u00e9 hoje.<br \/>Nos dias de folga, Adolfo gosta de ir ao Mercado P\u00fablico, cozinhar para amigos e beber vinho. Adora ler e admite que vai \u00e0 Livraria Saraiva no m\u00ednimo duas vezes por semana, mesmo que n\u00e3o v\u00e1 comprar nada, apenas para dar uma olhada. \u00a0Considera-se um cara atento que procura estar no seu tempo, n\u00e3o vive no passado, mas gosta do que fez e continua fotografando. Al\u00e9m disso, tem uma rela\u00e7\u00e3o muito legal com o restaurante tamb\u00e9m. Mas seu maior hobby, claro, segue sendo a fotografia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adolfo Gerchmann | Cr\u00e9dito: Rafael Serpa Gerchmann Somente amigos privilegiados sabem que na condu\u00e7\u00e3o de um dos restaurantes mais respeitados de Porto Alegre, o Orquestra de Panelas, est\u00e1, na verdade, algu\u00e9m que, antes de qualquer coisa, orgulha-se de ser fot\u00f3grafo. 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