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Não bastou cavar o buraco, foi necessário pular

“A burrice é diferente da ignorância.

A ignorância é o desconhecimento dos fatos

 e das possibilidades. A burrice é uma força da natureza.”

Nelson Rodrigues

A sensação é que, mais uma vez, Bolsonaro e seu clã provaram que são estrategistas de si mesmos, e, portanto, péssimos estrategistas. Havia, nos bastidores da política e do Judiciário, quase um consenso silencioso sobre o destino do ex-presidente: ninguém (nem direita moderada, nem esquerda institucional, nem mesmo setores do próprio governo) considerava interessante tê-lo em uma penitenciária. A prisão domiciliar aparecia como a solução mais pragmática para evitar um caos político desnecessário.

Era o cenário perfeito para todos. Bolsonaro longe das ruas, controlado, enfraquecido, sem exposição e sem riscos dramáticos. Uma prisão domiciliar evitaria a imagem de um ex-presidente atrás das grades, evitaria sua transformação em mártir da extrema direita e evitaria que ele se tornasse um problema humanitário dentro do sistema penitenciário, o que geraria pressão internacional, crise institucional e desgaste para todos os lados.

Mas, como já virou marca registrada, a família Bolsonaro escolheu o pior caminho possível. A tentativa de fuga (ou de “evasão estratégica”, no linguajar mais polido) destruiu qualquer margem de negociação, queimou pontes e entregou ao ministro Alexandre de Moraes justamente o argumento que faltava para endurecer de vez.

Se antes havia espaço político para uma solução mais branda, agora Bolsonaro praticamente obriga Moraes a impor a medida mais dura: prisão em penitenciária. Não por vingança, mas porque a fuga transforma o réu em risco concreto ao processo. O gesto que deveria salvá-lo, na verdade, pode condená-lo ao cenário que todos, até então, tentavam evitar.

A ironia é que a direita radical, que sempre acusou o ex-presidente de ser vítima do sistema, pode assistir ao seu líder cair justamente por obra da própria incapacidade de agir com racionalidade. E a esquerda que não queria um mártir, agora pode se ver diante de um. Tudo por causa de uma estratégia tão ruim quanto previsível.

No fim, Bolsonaro e seus filhos provaram novamente que são especialistas em cavar o próprio buraco: e em pular dentro dele com convicção. A estratégia do clã segue exatamente como sempre foi: equivocada, impulsiva e politicamente suicida.

Autor

Fernando Puhlmann

Sócio-cofundador da Cuentos y Circo, Puhlmann é um dos principais especialistas em YouTube do país, com um olhar focado em possibilidades de faturamento na plataforma e uma larga experiência em relacionamento com grandes marcas do mercado de entretenimento. Além de diretor de Novos Negócios da CyC, tem também no seu currículo vários canais no país, entre eles o do escritor Augusto Cury, do Gov Eduardo Leite, Natália Beauty e do Grêmio FBPA, sempre atuando como responsável pela estratégia de crescimento orgânico dos canais. Já realizou palestras sobre a nova Comunicação juntamente com diretores do YouTube Brasil como a abertura do 28º SET Universitário da Famecos-PUCRS, o YouPIX/SP e o Workshop YouTube Gaming Porto Alegre. Desde 2013, Puhlmann ministra cursos, seminários e oficinas sobre YouTube, tendo mentorado mais de 30 canais nos últimos anos.
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