“A burrice é diferente da ignorância.
A ignorância é o desconhecimento dos fatos
e das possibilidades. A burrice é uma força da natureza.”
Nelson Rodrigues
A sensação é que, mais uma vez, Bolsonaro e seu clã provaram que são estrategistas de si mesmos, e, portanto, péssimos estrategistas. Havia, nos bastidores da política e do Judiciário, quase um consenso silencioso sobre o destino do ex-presidente: ninguém (nem direita moderada, nem esquerda institucional, nem mesmo setores do próprio governo) considerava interessante tê-lo em uma penitenciária. A prisão domiciliar aparecia como a solução mais pragmática para evitar um caos político desnecessário.
Era o cenário perfeito para todos. Bolsonaro longe das ruas, controlado, enfraquecido, sem exposição e sem riscos dramáticos. Uma prisão domiciliar evitaria a imagem de um ex-presidente atrás das grades, evitaria sua transformação em mártir da extrema direita e evitaria que ele se tornasse um problema humanitário dentro do sistema penitenciário, o que geraria pressão internacional, crise institucional e desgaste para todos os lados.
Mas, como já virou marca registrada, a família Bolsonaro escolheu o pior caminho possível. A tentativa de fuga (ou de “evasão estratégica”, no linguajar mais polido) destruiu qualquer margem de negociação, queimou pontes e entregou ao ministro Alexandre de Moraes justamente o argumento que faltava para endurecer de vez.
Se antes havia espaço político para uma solução mais branda, agora Bolsonaro praticamente obriga Moraes a impor a medida mais dura: prisão em penitenciária. Não por vingança, mas porque a fuga transforma o réu em risco concreto ao processo. O gesto que deveria salvá-lo, na verdade, pode condená-lo ao cenário que todos, até então, tentavam evitar.
A ironia é que a direita radical, que sempre acusou o ex-presidente de ser vítima do sistema, pode assistir ao seu líder cair justamente por obra da própria incapacidade de agir com racionalidade. E a esquerda que não queria um mártir, agora pode se ver diante de um. Tudo por causa de uma estratégia tão ruim quanto previsível.
No fim, Bolsonaro e seus filhos provaram novamente que são especialistas em cavar o próprio buraco: e em pular dentro dele com convicção. A estratégia do clã segue exatamente como sempre foi: equivocada, impulsiva e politicamente suicida.