O Movimento Armorial, criado pelo poeta, professor e dramaturgo Ariano Suassuna na década de 1970, foi uma tentativa de afirmar a cultura nordestina diante das pressões externas, sobretudo da indústria cinematográfica global. Ao propor uma arte brasileira singular, baseada nas raízes populares do sertão, especialmente da literatura de cordel, Suassuna defendia que Pernambuco não deveria se curvar a Hollywood, mas sim projetar sua própria voz. Décadas depois, temos Kleber Mendonça Filho fazendo história. Embora o trabalho de Mendonça Filho tenha uma estética e linguagem diferentes da de Suassuna, voltadas para o realismo social, questões urbanas e políticas, ambos compartilham a mesma valorização da identidade cultural do Nordeste e do Brasil. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, ambientado no Recife em 1977, durante a ditadura militar, conquistou a crítica internacional e já desponta como candidato ao Oscar 2026.
Ariano e Kleber são dois nomes especialmente significativos para mim, que ingressei na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1989, no curso de Publicidade e Propaganda, justamente no ano da aposentadoria de Ariano Suassuna, e tive, aos 17 anos, o privilégio de assistir a algumas de suas aulas-espetáculo, como ele mesmo gostava de chamar. Kleber, três anos mais velho do que eu, assistia às aulas de jornalismo em alguma sala do Centro de Artes e Comunicação (CAC). A minha formação intelectual, que se reflete no meu trabalho como jornalista e como coordenadora do Gabinete de Comunicação do Ministério Público do Rio Grande do Sul, passa pela “Federal de Pernambuco”. Também cresci frequentando o Cinema São Luiz, cenário importante dos filmes de Mendonça Filho, e esse espaço sempre foi, para mim, uma espécie de templo. Por isso, é muito emocionante ver o Recife e Pernambuco serem reconhecidos mundialmente pela excelência artística.
Para escrever este artigo, refleti também a partir de um presente lindo que recebi da minha amiga, a jornalista Luci Jorge: a coletânea das poesias de Ariano Suassuna reunidas no livro O Pasto Incendiado. Esse gesto reforçou ainda mais a conexão entre memória, cultura e afeto, lembrando que a obra de Ariano continua a inspirar e a iluminar caminhos. No Reino Encantado, para onde provavelmente foi, depois de ter sido levado em 2014 por Caetana, como se chama a morte no sertão, Ariano deve estar feliz. O Movimento Armorial e o cinema de Kleber Mendonça Filho convergem nesse ponto crucial: a afirmação da cultura local diante das pressões internacionais.
E eu? Eu também estou sorrindo, porque percebo que ganhei, desde cedo, uma maneira de olhar a vida muito parecida com as deles. Em essência, Suassuna via as pessoas com um olhar que misturava realismo e idealismo, destacando a capacidade de sonhar e encontrar beleza na simplicidade do cotidiano. Kleber traz uma perspectiva local para assuntos universais. Os dois, com muita humanidade. Assim busco fazer comunicação.
Roberta Salinet é coordenadora do Gabinete de Comunicação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS).