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Stranger Things e a crise do jornalismo caça-cliques

De Henrique Massaro, para Coletiva.net

A informação foi publicada por um tabloide inglês e logo tomou conta do noticiário de entretenimento. Informação ou fofoca? Na lógica do jornalismo guiado por cliques, parece não haver diferença. A manchete envolvia celebridades, uma das séries mais assistidas do mundo e uma acusação polêmica – ingredientes infalíveis para viralizar e que acabaram se tornando os novos valores-notícia.

O Daily Mail publicou, no início de novembro, que a atriz Millie Bobby Brown acusou o ator David Harbour de bullying e de assédio no set de Stranger Things. O timing da publicação foi perfeito: menos de um mês para a tão aguardada última temporada da série chegar à Netflix e uma semana depois de a cantora Lily Allen revelar a infidelidade de Harbour, seu ex-marido, no álbum “West End Girl”.

Foi o que bastou para que todos os portais de entretenimento replicassem. Alguns veículos tomaram o cuidado de incluir “diz site” no fim das manchetes para que o leitor não tomasse imediatamente como verdade. Na maioria, no entanto, Brown denunciava Harbour e ponto final. Nenhuma ponderação quanto à credibilidade questionável do Daily Mail ou ao fato de que o tabloide não citou nominalmente nenhuma fonte e nem apresentou nenhum documento que comprove a existência de uma acusação formal.

A lógica que leva a esse comportamento é fácil de compreender. Google e Meta mudaram o modelo de negócio de publicidade direta da imprensa. Rentabiliza-se, principalmente, pela quantidade de cliques e pela retenção da audiência guiada pelos algoritmos, que otimizam o engajamento e, consequentemente, a polêmica. Também é mais rápido e barato republicar conteúdo do que produzir jornalismo profissionalmente.

Entrar na onda virou sobrevivência. Ignorar um assunto quando ele fica em alta não é uma opção. Mas cabe à mídia séria, pelo menos, o básico: ir atrás da história, fazer as ponderações necessárias, contextualizar o que está prestes a entregar ao público. É mais trabalhoso, sim, mas é o que ainda separa jornalismo de fofoca.

Voltando às supostas alegações, menos de uma semana depois, na première da quinta temporada, Harbour e Brown apareceram juntos e sorridentes enquanto posavam para fotos. No evento, a atriz disse que os dois têm uma ligação especial e uma relação de pai e filha, sem citar os rumores.

Outros integrantes da série deram declarações amenizando a situação sem mencionar os boatos. Estratégia dos especialistas em controle de crise da Netflix para que as notícias não atrapalhem o lançamento da temporada? Certamente e, diga-se de passagem, bem executada. Contornar a situação sem citar a fofoca diretamente é uma forma de não legitimá-la.

Significa que nada tenha acontecido? Não necessariamente. Ao menos agora há declarações que, de certa forma, desmentem o que foi publicado e republicado sem informações consistentes. Mas nem sempre é possível reverter a narrativa. No modelo caça-cliques em que a veracidade pouco importa, muitas histórias logo se tornam verdadeiras e destroem reputações.

Henrique Massaro é consultor de Comunicação da Critério

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