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Ano problemático

Perdoem-me os que não gostam de futebol, perdoem-se os torcedores do Grêmio, mas hoje vou escrever sobre o Inter. Aliás, não somente sobre o Inter, pois o ano colorado, com tudo o que aconteceu, merece uma análise profunda, dentro e fora do campo e do estádio.

O ano colorado até começou bem, com a conquista do Campeonato Gaúcho, algo que não acontecia desde 2016. O torcedor estava sedento por títulos e com muita saudade de comemorar conquistas. De quebra, impediu que o coirmão chegasse ao oitavo triunfo consecutivo na competição, que igualaria o recorde colorado, que foi octa entre 1969 e 1976.

Houve as Copas Libertadores e do Brasil e, nelas, o Inter não passou das oitavas de final, caindo respectivamente para Flamengo, que acabou campeão da Libertadores, e Fluminense, que pode ser campeão da Copa do Brasil.

Na Libertadores, por sinal, o Inter acabou dando um dos seus vexames do ano por conta de uma chuva de prata (papel picado) totalmente fora de hora, o que acabou atrasando em 20 minutos o início do confronto com o Flamengo, no Beira-Rio.

No Campeonato Brasileiro, o colorado foi sucumbindo aos poucos. Antes do início da competição, era apontado como um dos favoritos. Ao longo, porém, a realidade mostrou-se bem distinta em relação às expectativas.

Em meio à competição, com uma má campanha, houve a troca de técnico, com o argentino Ramon Díaz substituindo Roger Machado. Aqui abro um parêntese: Roger Machado saiu deixando marcas positivas. Além do título no Gauchão, durante sua passagem não se privou de dar declarações condenado a preconceitos, mostrando que o futebol pode sim contribuir para transformações.

Ramón Díaz não correspondendo às expectativas, não fez um bom trabalho como técnico. Além disso, foi o responsável por uma declaração extremamente infeliz e preconceituosa: “O futebol é coisa para homens, não para meninas, é para homens”, disse o argentino com todas as letras.

O ingrediente puramente machista da declaração dispensa qualquer explicação ou comentário. Foi uma fala carregada de preconceitos que atingem todos os times femininos, inclusive o do Inter (“Gurias Coloradas”), clube que sediará partidas da Copa do Mundo feminina em 2027, todas as mulheres e a sociedade em geral.

Com Ramón Díaz fracassando em seu trabalho acabou demitido. Para o seu lugar, em um ato de heroísmo perante o clube, chegou o ídolo Abel Braga para, de graça, dirigir o time nas duas últimas partidas.

Mas, em um país preconceituoso, até os ídolos dão suas derrapadas. E aconteceu com Abel ao afirmar que “o time jogar com camiseta rosa parece time de viados”. Grave. Frase recheada de homofobia, inadmissível em qualquer tempo.

No final das contas, apesar dos tropeços, o Inter, contando com o trabalho e a mística de Abel Braga fecha o ano com o título do Gauchão e livre do rebaixamento. Mas é pouco. E que os erros cometidos ao longo do ano sirvam de reflexão para que o clube faça jus à sua grandeza, dentro e fora das quatro linhas. Obviamente, a direção tem que fazer a mea culpa.

Autor

Renato Dornelles

Jornalista, escritor, roteirista, produtor, sócio-diretor da editora/produtora Falange Produções, é formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (1986), com especialização em Cinema e Linguagem Audiovisual pela Universidade Estácio de Sá (2021). No Jornalismo, durante 33 anos atuou como repórter, editor e colunista, tendo recebido cerca de 40 prêmios. No Audiovisual, nos últimos 10 anos atuou em funções de codireção, roteiro e produção. Codirigiu e roteirizou os premiados documentários em longa-metragem ‘Central – O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil’ e ‘Olha Pra Elas’, e as séries de TV documentais ‘Retratos do Cárcere’ e ‘Violadas e Segregadas’. Na Literatura, é autor dos livros ‘Falange Gaúcha’, ‘A Cor da Esperança’ e, em parceria com Tatiana Sager, ‘Paz nas Prisões, Guerra nas Ruas’. E-mail para contato: renatinhodornelles@hotmail.com
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