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Conforme o Estado falha, o jeitinho aumenta

O jeitinho brasileiro pode ser entendido como uma forma de navegação social, uma forma do brasileiro tentar “se dar bem”, tirando vantagem de uma situação ou de uma pessoa.

O “jeitinho”, inicialmente sinônimo de “criatividade”, adaptou-se para a capacidade de resolver problemas ou tarefas utilizando subterfúgios, burlando regras, utilizando-se de redes de relacionamentos e se constituindo como uma forma de “levar vantagem”. Quem tem a cultura do jeitinho, fica feliz quando se dá bem em cima de outra pessoa.

O jeitinho brasileiro se fortalece com a cultura de criminalização da política. Conforme se acentua a descrença nas instituições e nos políticos, maior é a tendência de crescimento do jeitinho. 

Quanto mais se ampliar a percepção de que a justiça não é para todos, maior será a resposta aos estímulos do jeitinho. Quanto maior for o descaso ou a omissão do Estado com a ampliação de vulnerabilidade social, maior será a adesão ao jeitinho. Quanto mais severas e restritivas forem as leis, maior será a concordância da população com o jeitinho.

O jeitinho brasileiro tem seu cerne na cultura política, faz parte do DNA do país. Está na base das famílias, da comunidade, nas relações de trabalho e, especialmente, nas relações entre a sociedade e os agentes públicos.

Com a pandemia, a prática do jeitinho está crescendo pelas condições estruturais e conjunturais da população. O Estado, que regra, não consegue orientar. O Estado, que regra, não consegue fiscalizar. O Estado, que regra, não consegue punir. E o jeitinho vai ocupando essas brechas, as pessoas vão dando “um jeitinho”, “aceitando um jeitinho” ou “fazendo um jeitinho” por uma questão contingencial, por necessidade de superação ou até mesmo por sobrevivência.

Os comportamentos são individuais, mas quando passam a ser realizados por muitas pessoas de forma sistêmica, criam um efeito coletivo, dando legitimidade para a ação, como se fosse “normal”, “aceitável”.

Tem aqueles que montam a “festa clandestina”, fazem a aglomeração e ainda argumentam que estão cumprindo os protocolos. Tem os que vão para a aglomeração, sem máscara, sem cuidados sanitários e nem se dão conta de que podem contaminar suas famílias.

Tem os que ampliaram a sonegação de impostos, com a tranquilidade instaurada pelo cenário de crise. O jeitinho também está presente no comportamento dos usurpadores, aqueles que ganham financeiramente com o sobrepreço nos produtos indispensáveis para a pandemia.

Tem aquele que faz o “gato de luz” para não deixar os filhos sem energia em casa, quando já acumula duas ou três contas atrasadas. Tem aquele que invade a casa abandonada, pois não tem para onde levar a sua família. O jeitinho é a porta para a corrupção e também pode abrir a porta para a criminalidade.

Como um faz, o outro se sente no direito de fazer, e assim o jeitinho vai tomando conta do corpo da sociedade. Em um contexto pandêmico, de maior fragilidade financeira e emocional, o jeitinho tende a ocupar todos os espaços que o Estado deixar, todas as frentes que o Estado não fiscalizar. 

Será necessário que o Estado lidere frentes de políticas públicas ativas, aliadas à educação/conscientização e a fiscalização/punição.

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: elis@ipo.inf.br
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