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Eu me importo, você se importa?

Me entristeço com as mais de quatrocentas mil mortes por Covid-19 no Brasil. Me compadeço com cada relato de morte por Covid que vejo, diariamente, nas postagens de meus amigos e seguidores nas redes sociais. Me consterno com cada notícia de falecimento por Covid de minha rede de relacionamento. 

As pesquisas de opinião indicam que 86% dos brasileiros conhecem alguém que morreu por consequência de Covid-19, seja um membro da família, amigo ou uma pessoa conhecida. 

É um cenário muito desolador. Muitas pessoas contaminadas não imaginavam que iriam contrair o vírus e que ele seria impiedoso. Em um dia estavam fazendo as coisas que costumavam fazer, no outro estavam infectadas, lutando para respirar. É como uma “roleta russa”: onde imagina-se uma expectativa de sucesso, maior do que a do risco. 

Tenho pensando muito no poema de Bertolt Brecht. Durante o período de guerras o poeta refletia sobre a grave questão da indiferença do ser humano. A vida individualista, que prioriza o “eu” em detrimento do “outro”. Dilema que ainda se apresenta como um dos problemas a serem enfrentados nessa pandemia. 

No poema “É preciso agir”, ele dizia: 

Primeiro levaram os negros; Mas não me importei com isso; Eu não era negro; Em seguida levaram alguns operários; Mas não me importei com isso; Eu também não era operário; Depois prenderam os miseráveis; Mas não me importei com isso; Porque eu não sou miserável; Depois agarraram uns desempregados; Mas como tenho meu emprego; Também não me importei; Agora estão me levando; Mas já é tarde; Como eu não me importei com ninguém; Ninguém se importa comigo. 

Salvaguardando todas as diferenças e o contexto histórico, o poema pode ser convertido para os tempos atuais: 

   Primeiro o vírus levou quem viajava de avião;

   Como eu não viajava, não me preocupei.

   Depois o vírus levou as pessoas do grupo de risco;

   Como eu não era do grupo de risco, não me preocupei.

   Depois o vírus levou os profissionais da saúde;

   Como eu não trabalhava na área da saúde, não me preocupei;

   Depois o vírus levou as pessoas que não conseguiam leitos;

   Como não estava doente, não me preocupei.

   Depois o vírus levou quem se aglomerava;

   Como eu não me aglomerava, não me preocupei.

   Agora o vírus está cada vez mais próximo, não cabe mais desculpas. É preciso agir!

Nessa pandemia a regra está clara: eu me cuido, tu te cuidas para nós nos cuidarmos.

Significa que temos que nos preocupar. Significa que temos que nos importar. Significa que temos que orientar e cobrar consciência coletiva de nossa família e de nossos colegas e amigos.

O vírus se mantém pela transmissão entre as pessoas. A doença pode se espalhar pelo contato físico entre pessoas. Ele é implacável e exige que tenhamos consciência social. Temos que seguir os protocolos sanitários (utilizar máscara, higienização das mãos e distanciamento social), fazer a vacina assim que oportuno, não realizar encontros de família, comemorações em casa e denunciar as aglomerações indevidas e as festas clandestinas. 

Se cada um fizer a sua parte, juntos dificultaremos a proliferação do vírus. Todos somos soldados nessa guerra e para existir o nós, tem que haver o eu e o você. Eu me cuido, eu me preocupo e eu motivo a consciência coletiva. E você?

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: elis@ipo.inf.br
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