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Parem de nos matar

Por favor, parem de nos matar. Queremos seguir vivas. Precisamos ainda escrever nossas histórias com capítulos mais alegres. Queremos prosseguir com as nossas vidas, acompanhadas ou sós. Aceitem os fins dos relacionamentos. Queremos poder andar nas ruas sem medo de qualquer tipo de assédio. Sem acelerar o passo temendo um vulto atrás de nós. Queremos usar o transporte público sem receio de ser importunadas. Queremos usar a roupa que nos agrada, no lugar que optamos por frequentar. Nas ruas, nos trabalhos, nas baladas, nos estádios de futebol, nos shows, nos encontros e desencontros. Respeitem a nossa existência e as nossas escolhas.

O desabafo acima, em tom de súplica, é porque fechamos o primeiro mês do ano quase em estado de calamidade pelo número de mulheres mortas. Sim, em janeiro de 2026, no Rio Grande do Sul os feminicídios dispararam. No dia 29 de janeiro, ocorreu o 11º caso de feminicídio em solo gaúcho. Vejam bem, 11 mulheres foram assassinadas em janeiro pelo fato de serem mulheres. Em igual período do ano passado, foram nove vítimas. O número registrado em janeiro,11 feminicídios, foi o mesmo de abril de 2025 (11 mulheres mortas por razões de gênero).

Segundo reportagem publicada em Zero Hora (ZH) na edição de 30 de janeiro, o Rio Grande do Sul teve, em média, um feminicídio a cada quatro dias nos últimos 14 anos. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) do Estado apontam que 1.285 mulheres tiveram suas trajetórias interrompidas, vítimas de feminicídios, no decorrer destes 14 anos.

A mesma matéria de ZH informa que as tentativas de feminicídios (isto é, os crimes não consumados) engrossariam muito estes números estarrecedores. Desde 2013, quando a SSP passou a contabilizar casos de violência doméstica no RGS, 3.698 mulheres quase morreram por este motivo. Uma tentativa de assassinar uma mulher em contexto de gênero a cada 31 horas.

Eu fico me perguntando porque é tão complicado reduzir essa estatística. Porque continuam calando nossas vidas. Porque seguem ignorando nosso direito de viver, de ser livre, de fazer nossas escolhas, de interromper relacionamentos, de sermos realizadas profissionalmente.

É preciso, com urgência, mudar esse cenário. Mais do que a criação da Secretaria de Estado da Mulher, que ocorreu em agosto do ano passado, após 10 anos de ausência da pasta, é necessário um orçamento adequado para que sejam implementadas políticas públicas, mais Delegacias Especializadas da Mulher em operação, Centros de Referências da Mulher em mais municípios e de fácil acesso, programas de geração de rendas para as mulheres que conseguem escapar dos feminicídios e vagas em creches e escolas para os filhos.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: marfermartins@gmail.com
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