O conflito entre Estados Unidos e Venezuela impôs um grande desafio ao trabalho da imprensa. Com o espaço aéreo fechado e a entrada de jornalistas proibida, as informações sobre os desdobramentos da captura de Nicolás Maduro e a realidade venezuelana precisam ser transmitidas a partir das fronteiras. E foi diretamente da divisa do Brasil com o país vizinho que o jornalista Rodrigo Lopes conversou com a reportagem de Coletiva.net sobre o trabalho jornalístico diante do conflito. “Voltar a cobrir a Venezuela depois de ter sido detido pelo regime Maduro, em 2019, é um desafio profissional e pessoal”, afirmou.
Rodrigo chegou a Pacaraima, em Roraima, no último domingo, 4 – dia seguinte à operação dos Estados Unidos que prendeu Maduro. Para ele, que já esteve em cenários de guerra no Líbano, na Líbia e na Ucrânia, o trabalho tem sido diferente justamente pela falta de acesso ao território. “Isso limita muito a cobertura e, nesse sentido – e apenas nesse sentido – é possível comparar ao vazio informacional que se tinha e se tem em relação ao território de Gaza”, destacou. O jornalista entende isso como uma perda tanto para a imprensa e o público quanto para os próprios venezuelanos, “que têm o direito de que sua história seja contada sem filtros”.
Militares mandaram recado aos jornalistas brasileiros
O profissional entende que cobrir uma crise política é diferente de uma guerra: “As ameaças, para jornalistas, são outras”. No cenário vivenciado atualmente na Venezuela, explicou Rodrigo, a guerra civil – com lutas entre grupos armados, sequestros, subornos e prisões – é uma possibilidade. “O risco de ser preso pelo regime é muito alto. Afinal, Nicolás Maduro caiu, mas a ditadura continua de pé”, alertou.
Rodrigo comentou sobre o Sindicato dos Trabalhadores de Imprensa da Venezuela que denunciou a prisão de 14 jornalistas que cobriam a posse da presidenta interina, Delcy Rodríguez. “Se, em uma cerimônia oficial, o regime prende esse grande número de jornalistas credenciados, imagine o que ocorre nas estradas e cidades”, argumentou. Ele afirmou ter recebido relatos de colegas que foram detidos ao tentar entrar no país pela fronteira com a Colômbia. Liberados horas depois, eles tiveram celulares e redes sociais vistoriados. “Aqui, na fronteira do Brasil, militares venezuelanos mandaram um recado aos jornalistas brasileiros para que não cruzem a fronteira, porque serão presos. E disseram que drones da imprensa podem ser abatidos”, contou.
O governo também não fala com a imprensa. Rodrigo relatou ter buscado a embaixada do país, em Brasília, e o consulado, em Boa Vista, para obter um visto de entrada, mas não foi atendido. “Estranho também o silêncio das autoridades brasileiras. Gostaria de fazer uma reportagem sobre os militares gaúchos que participam da Operação Acolhida – são mais de 200 do Comando Militar do Sul (CMS) aqui em Pacaraima -, e o Exército não autorizou. Passou a responsabilidade para a Casa Civil, que também não respondeu às solicitações”, contou.
A prefeitura de Pacaraima segue o mesmo comportamento: “O prefeito está de férias e o vice desconversou”. “Os políticos brasileiros e as Forças Armadas estão medindo palavras, silenciando, por medo de se envolverem em um tema que polariza a sociedade, sobretudo em ano eleitoral”, avaliou. Rodrigo entende que a omissão “prejudica o debate de ideias, dificulta o trabalho da imprensa e, infelizmente, deixa o leitor, telespectador e ouvinte desinformado”.
Superação pessoal
Para o comunicador, ao adentrar uma zona de risco como repórter, a apuração é a parte mais fácil. “Somos treinados e sabemos exercer o ofício de nossa profissão”, observou. A logística e a segurança são os verdadeiros desafios. Em 2019, na ocasião em que foi detido, estava cobrindo uma manifestação de apoio a Maduro frente à crise causada pela autoproclamação de Juan Guaidó como presidente. “Tiraram meu celular e passaporte por duas horas, período em que fiquei incomunicável em um quartel na frente do Palácio de Miraflores”, relatou.
Naquele momento, Rodrigo, os editores e os diretores do Grupo RBS decidiram abortar a cobertura. “Mas nosso trabalho implica entrar onde as pessoas querem sair. E, por princípio, acredito que o jornalismo só faz sentido quando feito no local exato onde os fatos estão ocorrendo”, defendeu. Foi movido por essa crença que Rodrigo conseguiu entrar na Venezuela, cogitando ir até Caracas. “Falei com diferentes fontes, busquei motoristas de confiança, analisei riscos”, disse.
Na terça-feira, 6, foi até Santa Elena de Uairén, a 16 quilômetros da fronteira, onde permaneceu por duas horas como turista. “Os venezuelanos estão com medo, não sabem o que vai ocorrer. Só quem celebra a queda de Maduro é quem está fora do país”, relatou. No local, descobriu que se quisesse seguir mais 600 quilômetros até Puerto Ordaz, passaria por cerca de 30 barreiras. “Só no trecho de 16 quilômetros que percorri foram três. O risco de ser preso adiante, em qualquer barreira, seria muito alto. Até Caracas, em 1.200 quilômetros, seria ainda mais perigoso”, contou.
Por prudência, retornou a Pacaraima, de onde segue uma cobertura que equilibra descrição factual e análises como colunista e especialista em temas internacionais. “Como se sabe, nenhuma reportagem vale a vida de um repórter”, afirmou. Ainda assim, o jornalista considera a breve entrada no território venezuelano como uma missão cumprida. “A cada barreira dos militares venezuelanos eu revivia, mentalmente, a minha prisão de 2019. Obviamente, tive medo de que se repetisse aquilo, mas superei esse receio”, assegurou.
Longe de acabar
O repórter acredita que Estados Unidos e Venezuela terão um impasse prolongado. Rodrigo analisou que, ao tutelar a vice-presidente e manter o establishment militar, os EUA evitaram uma guerra civil entre facções. “Não sei se isso continuará, porque há facções dentro do regime que acreditam que a então vice-presidente Delcy Rodríguez traiu Maduro. E é bem provável. Também os dois militares que sustentam a ditadura, Diosdado Cabello e Padriño Lopez, seguem no poder”, explicou.
Além disso, os chamados ‘coletivos’, que são grupos armados e milícias, já estão perturbando a população. “Está muito claro que o governo Donald Trump capturou Maduro de olho no petróleo. Não era questão apenas ideológica. A Venezuela precisa de eleições livres, instituições independentes, liberdade política e de expressão e imprensa independente. E isso não se constrói de fora para dentro”, avaliou. De acordo com o jornalista, “o fato de Maduro ser um ditador não dá aos EUA o direito de violar uma nação soberana”.
Para ele, o ocorrido abre um precedente perigoso para que novas intervenções semelhantes aconteçam. “A ação americana viola o Direito Internacional e legitima o ataque da Rússia à Ucrânia e a futura (e provável) invasão de Taiwan pela China. Mais uma vez, repito que estamos vendo apenas uma fase de uma crise que vai se prolongar”, projetou. Ao seu ver, esse longo processo poderá levar ao colapso definitivo do regime ou sua manutenção, sob tutela dos Estados Unidos. Enquanto isso, a cobertura continua: “Sinto que vou voltar à Venezuela em breve”.