A Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) realizará nesta sexta-feira, 28, às 9h, a primeira audiência pública na Sala II do Salão de Atos do campus central (Avenida Paulo Gama, nº 110), em Porto Alegre. A atividade integra o processo de apuração sobre perseguições e medidas repressivas vividas por estudantes da instituição durante o período iniciado com o golpe militar de 1964. O encontro reunirá ex-integrantes do movimento estudantil que tiveram suas trajetórias acadêmicas afetadas por punições, afastamentos e ações de censura.
Para a presidente da comissão, Roberta Baggio, “a primeira audiência pública marca um passo decisivo no compromisso da Ufrgs com a preservação da verdade histórica e com o fortalecimento da democracia”. Ela destaca ainda a relevância da escuta pública no trabalho de reconstrução histórica. “Ao abrirmos este espaço de escuta, reconhecemos a centralidade das narrativas daqueles que viveram as violações e reafirmamos o dever institucional de trazer essas histórias à luz, com rigor, respeito e responsabilidade pública”, declara.
Estão previstos para o encontro os depoimentos de Dilza de Santi, João Ernesto Maraschin e Henrique Finco, todos ex-estudantes da universidade e participantes ativos do movimento estudantil em diferentes décadas. Os relatos programados abordam expulsões, prisões, períodos de clandestinidade e exílio, além de experiências ligadas à mobilização política dentro e fora da instituição. Cada testemunho integrará o acervo em formação e contribuirá com o conjunto de documentos e evidências reunido pela comissão.
Sobre os ex-estudantes
Dilza de Santi foi integrante do movimento estudantil desde o período em que atuou no grêmio estudantil em Uruguaiana. Em 1966, ingressou no curso de Filosofia da Ufrgs e assumiu a vice-presidência do ‘Diretório Central dos Estudantes’ entre 1967 e 1968. Na mesma época, recebeu punição institucional, deixou a universidade e precisou sair do Rio Grande do Sul devido à repressão política. Viveu em situação de clandestinidade em São Paulo, onde foi presa pela Operação Bandeirantes (Oban) e, posteriormente, concluiu o curso de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP).
João Ernesto Maraschin ingressou nos cursos de Direito e Sociologia em 1968 da Ufrgs e participou de mobilizações estudantis voltadas à ampliação de vagas, ao aumento de verbas para a Educação e à crítica aos acordos MEC/Usaid, convênios entre o Ministério da Educação e uma agência dos Estados Unidos da América que influenciaram reformas educacionais durante a ditadura. Atuou no Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt, assumindo a presidência em 1970 e foi eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) em 1971. No ano seguinte, teve a expulsão determinada com base no Decreto 477 e passou por períodos de clandestinidade e exílio.
Henrique Finco foi estudante de Engenharia da Ufrgs em 1974, atuando na representação discente e residindo na Casa do Estudante Universitário (CEU). Participou de episódios como as eleições diretas para o DCE em 1975, o ‘III Encontro Nacional de Estudantes de Belo Horizonte’ em 1977 e a resistência à visita do ditador Jorge Videla na Praça Argentina em 1980. Formou-se em Jornalismo em 1985 e se tornou cofundador do curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde é professor titular.
Sobre a comissão
A Comissão da Memória e da Verdade recebe o nome do professor Enrique Serra Padrós, pesquisador que dedicou sua trajetória ao estudo de regimes autoritários na América Latina e docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da universidade até 2021. O grupo é responsável por organizar registros, recolher documentos e sistematizar relatos que aprofundam a compreensão sobre os dois processos de expurgo vividos pela Ufrgs entre 1964 e 1969, período no qual docentes, estudantes e técnicos foram afastados ou aposentados compulsoriamente. O trabalho prevê também a manutenção de um canal permanente de escuta para novas contribuições da comunidade.