A televisão, com sua capacidade de unir som, imagem e narrativas que tocam o público, exerce um fascínio duradouro na vida de Norton Nedeff Kappel. Para ele, a tela não é apenas um veículo de informação, mas um espaço onde o cotidiano encontra o extraordinário, em um reflexo da sociedade que pauta as rodas de conversas, mesmo depois do surgimento dos meios digitais.
Norton construiu uma carreira sólida longe dos holofotes, encontrando satisfação na engrenagem que faz a notícia chegar aos lares. Sua trajetória é marcada pela paixão em coordenar equipes, produzir reportagens e sentir a pulsação de uma redação viva, onde cada dia traz um novo desafio e uma oportunidade de contar histórias que importam.
Hoje, à frente da coordenação de Telejornalismo da Rede RS, canal da Grupo Box Brazil, Norton vive um novo capítulo, desafiador e revigorante: ajudar a consolidar uma emissora jovem, que completou recentemente seu primeiro ano de história. Longe de se acomodar com a experiência acumulada de quem atuou por mais de 29 anos na RBS TV, ele encara a tarefa com a humildade de quem sabe que não há manuais prontos para o ineditismo.
Comandando uma equipe de 18 profissionais e responsável por dois programas diários, ele aplica sua expertise para dar forma e voz a um projeto nascente, provando que a paixão pela TV se renova a cada dia, a cada pauta, a cada programa que vai ao ar. Essa relação íntima com o meio televisivo não se limita ao aspecto profissional; ela permeia sua visão de mundo. Para ele, fazer televisão é mais do que um ofício, é a possibilidade de transformar realidades e dar voz ao que precisa ser dito.
E é nesse universo, entre ilhas de edição e reuniões de pauta, que ele continua a encontrar seu propósito, guiado pela certeza de que, enquanto houver histórias para contar, a televisão continuará a ser, para ele, “o melhor veículo”. Afinal, mesmo diante das mudanças tecnológicas e do surgimento de novas mídias, ele mantém a crença na força dos canais abertos, democrático e acessível, capaz de reunir pessoas em torno de interesses comuns, seja no esporte, na notícia ou no entretenimento.
Entre as telas e a política
A conexão com as telas começou logo na faculdade, quando ganhou um prêmio no Set Universitário, evento realizado pela faculdade de comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O reconhecimento o permitiu participar da produção de um documentário da Casa de Cinema sobre AIDS, logo após a sua formatura, em 1988.
Depois desse período, recebeu o convite de Alice Urbim para integrar a equipe de uma campanha política municipal em Criciúma, em Santa Catarina. Durante alguns meses, acompanhou o candidato ao Executivo fazendo a captação do conteúdo em reuniões, comícios e interações com a comunidade.
Logo após o seu retorno para Porto Alegre, teve a oportunidade de ser radioescuta na RBSTV. E por lá ficou durante quase três décadas, passando por diferentes funções, como produtor de externa, produtor de reportagem, coordenador de Jornalismo do Interior e chefe de produção e reportagem.
Ao longo de sua jornada, testemunhou e participou de coberturas que definiram épocas, como o lançamento do Plano Real, em 1994, um marco que coincidiu com sua ascensão à subchefia de reportagem. Além da trágica cobertura do incêndio na Boate Kiss, que exigiu dele não apenas competência técnica, mas uma resiliência emocional profunda ao coordenar equipes em meio ao caos e à dor.
Com sua saída da TV, retornou à política com a campanha para deputado federal de Ronaldo Santini e empreendeu com José Pedro Villalobos na empresa Ponte Estratégias em Comunicação. A volta para os estúdios ocorreu em junho de 2024, já na Rede RS. “Eu fico com a generosidade de todas as pessoas que, de alguma forma, estiveram comigo e me ajudaram e me tornaram um profissional melhor.”
Graduado também em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e com master em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, na Espanha, aos 59 anos, Norton está no auge da maturidade profissional. Ele encara o desafio de coordenar o telejornalismo da Rede RS com o mesmo entusiasmo de um iniciante, mas com a bagagem de quem já viu e viveu muito na televisão.
Colocar uma emissora no ar, estruturar equipes e definir linhas editoriais são tarefas complexas, que exigem liderança e visão estratégica, qualidades que ele aprimorou ao longo de décadas. Longe de se intimidar, ele vê nesse projeto a oportunidade de aplicar tudo o que aprendeu, contribuindo para a construção de um novo espaço de comunicação no Estado, focado no conteúdo local e na proximidade com o público.
“Eu vivi muitos momentos felizes e sempre vou agradecer a tudo que eu vivi em todos os lugares que passei, porque em todas essas oportunidades pude ser sempre o que eu tinha que ser, o que acreditava. Nunca precisei fazer o que não gostaria de estar fazendo naqueles momentos”, compartilha.
Raízes e caminhos
Nascido em Nova Prata e criado com os pés na terra do interior gaúcho, Norton carrega consigo as memórias afetivas de uma infância dividida entre a cidade pequena e a fazenda da família em Lagoa Vermelha. Filho de um engenheiro agrônomo e de uma professora, ele cresceu em meio à natureza, aprendendo a lidar com o gado, pescando em açudes e contemplando céus estrelados que pareciam infinitos. Essas experiências moldaram seu caráter, mas não definiram destino profissional, mesmo que ele tenha cogitado durante a escola seguir os passos profissionais do pai. A vida no campo, embora rica em aprendizados e alegrias, competia com um fascínio crescente pelo mundo urbano e suas complexidades.
A adolescência trouxe consigo dúvidas e inquietações típicas da idade, mas ampliadas pela diversidade de interesses que povoavam sua mente. Enquanto jovem, flertou com a oceanografia, considerou a agronomia para cuidar da piscicultura na fazenda, e até sonhou com a diplomacia, movido pela paixão pela geografia e pelo conhecimento das capitais mundiais. Foi em conversas com amigos mais velhos e “intelectualizados” que novas perspectivas se abriram, levando-o a despertar para o universo da comunicação.
A decisão pelo Jornalismo foi comunicada ao pai durante uma viagem pelos campos que, teoricamente, seriam seu futuro local de trabalho. A aceitação paterna foi o aval para que trocasse suas ferramentas pela caneta e o bloco de anotações. Foi quando se mudou para Porto Alegre para cursar Jornalismo na PUCRS. A vinda para a Capital, inicialmente solitária, logo se transformou em um movimento familiar, com a chegada das irmãs e, posteriormente, dos pais, consolidando a cidade como o novo lar dos Kappel.
Hoje, as lembranças de Nova Prata e da fazenda ocupam um lugar especial em sua memória, mas sem a vontade de retomar aquelas vivências. Elas são a base sólida sobre a qual construiu sua vida na cidade, uma vida que ele abraçou com entusiasmo e que lhe proporcionou as oportunidades e os encontros que definiram quem ele é. “Eu não sinto saudades e nem é algo que eu tenha muito interesse, porque gosto da cidade e do movimento. Mas as lembranças que eu tenho são muito bacanas”, explica.
Ritmo urbano e laços afetivos
A rotina do jornalista em Porto Alegre é a antítese da calmaria do campo de sua infância, mas é exatamente nesse ritmo acelerado que ele se encontra. O dia começa cedo, conectado ao celular, buscando notícias e contatos de possíveis entrevistados para os programas que coordena – RS em Movimento e Ponto de Conexão -, uma extensão natural de sua paixão pela produção e pela reportagem. A academia é seu refúgio matinal, onde cuida do corpo e da mente.
A capital gaúcha também é o cenário de suas paixões pessoais, com destaque para o Internacional. Torcedor fervoroso e ex-conselheiro do clube – papel que ocupou durante 16 anos -, Norton vive o Beira-Rio desde a infância, transformando o estádio em segunda casa. Essa paixão pelo futebol é vivida com a intensidade de quem torce, mas também de quem conhece os bastidores do esporte como negócio – tema que explorou no podcast GoalCast durante três anos. O futebol é um dos pilares de sua identidade, mesclando alegria e frustração na medida certa, da forma que só o esporte proporciona.
Ele compartilha a vida com uma parceira que entende as nuances e as exigências da profissão. Casado há 34 anos com a jornalista Cláudia Nocchi, seu núcleo familiar se estende às duas enteadas, Alessandra e Paula, de quem fala com orgulho, e à neta Ella. Ele valoriza os momentos de lazer, bebendo um bom espumante ou simplesmente desfrutando da companhia dos seus familiares.
Para além do trabalho, o desejo de explorar o mundo continua a ser um motor importante. Com cerca de 30 países já visitados, Norton é um viajante curioso, que busca na Europa, especialmente na Alemanha e, mais recentemente, na Croácia, experiências culturais e paisagens que enriqueceram seu repertório. Viajar, para ele, é mais do que lazer, é um investimento em memórias, uma forma de ampliar horizontes e de se reconectar com aquele jovem que sonhava em ser diplomata para conhecer o mundo.
Assim, entre os desafios da redação e o planejamento da próxima viagem, Norton segue escrevendo sua história. Uma história que começou no interior do Rio Grande do Sul, passou pelos corredores de emissoras de TV e agora se desdobra na construção de um novo legado na Rede RS.